DÉCIMA CARTINHA
a uva passa na rabeira da linguiça e outros dizeres islandeses
1.
Tenho sentido saudades daquela fúria que imprimia nos primeiros textos que publiquei por aqui nessas praias virtuais. Naquelas semanas, andava suspensa num lugar que ainda não era o Brasil e já não era mais a Islândia. Organizava a documentação para assinar o pós-doc, não havia de fato começado a colocar as mãos na massa da pesquisa, procurava uma escola para meu filho, organizava a mudança e, em meio ao caos, isso tudo me permitia um silêncio fértil, aquele de quem está nadando dentro da vida imaginada: como seria estar no Brasil? Agora, inseridos em pleno fluxo de vida vivida, rotina escolar e caseira, trabalho que se desdobra em muitas formas, da pesquisa à preparação para aulas, de aulão à organização de laboratório de tradução, de revisão de tradução à organização de arquivo de tradução e anotação do próximo livro, tanto a ser escrito como traduzido, revisão de artigo recebido, finalização de artigo a ser submetido. Mas não era bem isso o que eu queria? Com direito a duas viagens ao Rio de Janeiro em dois meses. Acontece que essa fúria represada (quase seis anos vivendo fora do meu país e fora da minha língua, vivendo coisas bonitas e interessantes mas fora da minha língua e do meu lugar no mundo) acabou se encaminhando em direção aos destinos do desejo: foi encontrando caminhos bem definidos (academia, tradução, escrita) e sobrou pouco para esse espaço híbrido de cultivo. Mas criar às escondidas (ensaios, traduções e poemas que por enquanto ficarão inéditos, aulas) acaba me separando desse pequeno grupo de leitores que é tão importante para mim. Então venho aqui oferecer algo para retomarmos nossa conversa: a partir de dizeres/ ditados islandeses (que, com a ajuda do Luciano, apresento em formato original, tradução literária e tradução com equivalência dinâmica), vou relembrando um pouco os caminhos que percorri esse mês: leituras, traduções e devaneios.
Depois claro, como sempre, poema e canção.
2.
Þetta er rúsínan í pylsuendanum
“Isso é a uva passa na rabeira da linguiça”, ou seja “a cereja do bolo”
Eu imagino que vocês devem estar pensando: mas ela não se cansa de falar da Islândia? Já deu, né? Pois é, eu espero que não seja assim tão entediante para quem lê, mas de fato eu continuo me interessando em falar sobre a Islândia, talvez a distância tenha aguçado esse desejo, pois falar, ler e relembrar é uma forma de não perdê-la, mantê-la em algum lugar embaçado entre a lembrança e a imaginação. Há três livros que me acompanham nas últimas semanas, leitura completamente anárquica, já que não fazem parte do que eu deveria estar lendo. Contudo, estão em diálogo com um pensamento em fermentação em mim sobre tradução literária e isso não deixa de ser minha ocupação prática e preocupação acadêmica primária. Então, o que vier a seguir estará inevitavelmente contaminado por Viver e traduzir de Laura Wittner na tradução de Maria Cecilia Brandi e Paloma Vidal para a Bazar do Tempo; pela mesma editora, A chegada da escrita de Héléne Cixous na belíssima tradução coral coordenada por Flavia Trocoli e assinada também por Danielle Magalhães, Isadora Nuto, Marcelle Pacheco, Patrick Bange, Renata Estrella e Tainá Pinto; e, por fim, A arte do erro de María Negroni, na tradução de Ayelén Medail e Diogo Cardoso para a 100 cabeças.
Reaprendi a ler há uns dez anos, quando me tornei tradutora literária. Essa leitura mais profunda que se faz de um texto, essa relação alquímica com as palavras, parece sempre se engendrar a partir de uma relação de travessia. Quando tinha dezessete anos, num trabalho de conclusão de curso, fiz no colegial um projeto de tradução comparada de diversas versões de traduções de poemas de Leopardi para o inglês. Eu estava num colégio internacional e o inglês era a língua de estudo. Acho que foi naquela época que comecei a entender as camadas possíveis da leitura, para além do que eu aprendia na escola, era o começo de uma vivência prática e pessoal. Digo isso porque reli recentemente o belíssimo romance de Carola Saavedra, Paisagem com dromedário, para gravar uma aula e fazer a mediação do clube de leitura mais interessante do qual já participei, o clube Deriva organizado por Fabiane Secches. Minha primeira leitura do romance foi logo que o livro foi lançado, ou um pouco depois, portanto, eu era outra Francesca e, embora transitasse no mundo das línguas e das traduções, ainda não era propriamente uma tradutora literária. Há um trecho do livro que citei da Wittner em que ela diz: “Será que a autora sente algo à distância, no corpo, enquanto eu traduzo seu texto? Que nem um vudu?”. Pensei nisso enquanto lia o que a Carola escreveu a respeito da minha leitura do seu romance, após assistir à aula que eu havia gravado para o clube de leitura da Fabiane. Ao reler o romance, fiquei pendurada numa dúvida interpretativa (que não tive na primeira vez): será que a voz embargada da narradora, no final do romance, denunciava que havia tomado algum remédio, estaria entorpecida? Poderia ter colocado um ponto final à própria existência? Ou todas aquelas gravações, ao integrarem a instalação artística, respondem em parte às suas questões existenciais, ou seja, ela havia atravessado aquele caminho de subjetivação e separação do ex-companheiro, Alex, e colocado no mundo uma obra que era, de fato, sua? A releitura e a conversa com as leitoras do clube me levaram a retomar também uma conversa com a Carola, acabei passando algumas noites pensando nessa narrativa que me capturou, até criei uma playlist para a protagonista, Érika. Imaginei-a caminhando pela ilha vulcânica, Lanzarote, ouvindo essas músicas, pensando na vida, absorvida, tanto ela quanto eu, pela paisagem vulcânica. A circulação de leituras, a minha em relação às leitoras do clube, a devolução do meu entendimento da narrativa à Carola, o retorno de Carola sobre o que eu havia dito:
“Para minha surpresa, a leitura da Francesca trouxe à tona algo do livro que até então não existia. Ou, mais especificamente, não existia para mim, a autora. Na leitura da Francesca há a possibilidade, totalmente verossímil, aliás, de que a protagonista, a Érika, esteja morta. E que as gravações a que temos acesso, sejam póstumas. A interpretação caiu sobre mim como um fantasma. Como é possível que eu não tenha pensado nisso? E que só agora, quinze anos depois, a notícia chegasse até mim? Reli o final, e é verdade, Francesca tem razão, está tudo ali, sempre esteve. À revelia do meu objetivo, que era justamente oposto: a personagem escolhe um caminho novo, a vida, uma voz própria, a realização como artista. Mas eis que todo esse tempo a morte estava ali, alinhavada na vida. Concluo que as duas opções são possíveis, a vida e a morte, ambas esculpidas no texto. Porque sim, a literatura é desdobrável e é perigoso o coração selvagem da vida.”
Esse ir e vir de leituras e intenções revelam o coração pulsante da ficção que, quando tão bem esculpida, nos arranca às nossas certezas e faz com que entremos numa relação real, de comoção, com uma personagem fictícia. Ou será que há muito mais realidade na invenção, na fabulação? Esse trânsito todo me pareceu, como diriam, os islandeses, a uva passa na rabeira da linguiça dessa leitura, algo delicioso que acaba ornando. Nossa cereja no bolo.
3.
Það eru mínar ær og kýr“Essas são as minhas ovelhas e vacas”, ou seja, “isso é o meu xodó/a minha menina dos olhos”
“Komdu faðmaðu mig”, estou aqui ouvindo meu amigo José Andervel, nascido e criado no México, mas tão bem transplantado na Islândia e a gravação é tão bonita e delicada que consigo ouvir a pressão dos seus dedos no piano enquanto toca e canta acompanhado por JólPé, venha me abraçar, diz. De repente fui atravessada por aquela melancolia de juntar o impossível, lembrei da beleza de dirigir pela Islândia, ou caminhar à beira-mar olhando minha montanha preferida, Esja, nevada ou não, sob o sol ou iluminada pela lua, sob uma nevasca voltando a pé do mecânico para minha casa. Há muitos momentos em que não sinto saudade da Islândia. Não sinto saudades do quanto minha vida também foi difícil por lá, o quanto certo isolamento foi me definhando. Mas acontece que às vezes isolo algumas lembranças, agora resguardada no frio paulistano de 12 graus, sem aquecedor, mas com um corpo treinado aos 15 graus negativos, que se vira bem colocando uma blusinha de lã e uma meia mais grossa dentro de casa. Isolo essas lembranças de uma beleza arrebatadora e uma sensação de comunhão como o inexplicável que só pode nascer dessa relação corpo-a-corpo com a natureza, por um lado esmagada por seu poder, restrita aos muros domésticos muitas horas, por outro lado jogada um pouco à intempérie para dar conta da vida. A voz tão doce do meu amigo é também um abraço, parece que estou vendo o sorriso da Dubba, assim pelo menos é como Andri chamava nossa vizinha dona da peixaria mais charmosa da cidade, Vegamót, literalmente cruzamento, encruzilhada, embaixo do nosso apartamento. O dia em que cheguei em casa por volta das 18 horas e já estava, claro, um breu só, mas naquele frio de rachar os ossos também havia uma aurora pintando o céu e ela, que de auroras já tinha visto milhões, correu para não perder o espetáculo. Penso no movimento das ondas e na variação das cores do mar visto da janela da nossa sala. Lembro dos chás e cafés tomados com meu amigo Gabe no Kaffivest falando de poesia, à luz de vela no inverno. O vapor das piscinas aquecidas, o cheiro de enxofre na água de Reykjavík e, com a lembrança, vem também um assombro da lembrança das descobertas. A imagem da cidade antes da vida ser a vida que foi. É, essas pessoas, esses lugares, são também minhas ovelhas e vacas, meus xodós, porque qualquer um que tenha um mínimo de familiaridade com o cinema islandês vai lembrar bem da importância que os animais da fazenda têm para esse povo, aliás os animais “de casa” – húsdýr, como dizem eles. E aqui cito só dois filmes, Hrútar e Dýrið, que vocês não podem perder.
A condição de sentir falta de algo, sentir essa incompletude, de fato me arremessa ao desejo de escrever para relembrar, até mesmo me demorar nos detalhes. A sensação de ter sempre as roupas cheirando a comida, pois as janelas só abrem em frestas o ano todo. O medo de sair de casa e levar um tombo porque o gelo está lá até quando não se vê. Me pego olhando para o Andri comer seu macarrão com tanto gosto, ele sabe enrolar direitinho no garfo seu espaguete, mas não fui eu quem ensinou, a mãe ítalo-brasileira que deveria ter ensinado isso a ele, foram seus professores lá na Islândia, na escolinha perto de casa, na turma que levava o nome de Encosta do Sol (Sólbrekka). Talvez tenha sido a Lára ou o Hilmar, dois jovenzinhos que cuidavam com tanto amor e instinto dessa criaturinha. Meu filho agora se expressa tão bem, conversa, é articulado, todo dia chega em casa com um punhado de palavras novas, vai navegando essa mudança de um ponto ao outro do mundo. Ontem meu analista me disse sobre esse meu equilíbrio que nasce com o estar em movimento, falávamos das minhas próximas viagens, de ter recém chegado do Rio de Janeiro onde passei dias traduzindo poesia italiana com um grupo maravilhoso de alunas da UFF. Enquanto escrevo aqui, penso na imagem da bicicleta, de como para estar em equilíbrio ela tem que estar em movimento. Minha vida tem sido esse estar em movimento desde muito cedo, desde que ainda não podia tomar decisões sobre minha vida. Agora já em pleno poder do meu querer, sigo mudando, sigo transitando de um ponto ao outro. Levo meus amores, levo minhas vacas e minhas ovelhas, levo os meus quereres e os meus xodós.
4.
Neyðin kenni naktri konu að spinna“A necessidade ensina a mulher nua a tear”, ou seja, “a necessidade é a mãe da invenção”.
Fico pensando no Luciano quando chegou à Islândia num longínquo 2002 e que, por uma combinação de talento e necessidade, logo aprendeu a língua islandesa. O país era muito diferente naquela época, eu nunca conheci aquela Islândia. Da mesma forma que foi mudando muito rapidamente e o país em que cheguei não era o mesmo que deixei. Os lugares e as pessoas mudam e sempre mantemos uma ideia de algo que ainda deveria existir, mas não existe mais, fica ali congelado na lembrança como algo estático, mas nem mesmo a lembrança é tão estável. Depois penso que todo esse mundo que descortinou para mim, essa língua que me custa e me custou tanto (e ainda custará porque não consigo e nem nunca vou dominar) exerce ainda uma atração profunda sobre mim (será por isso que é tão atraente assim?). E aí quando todos estão dormindo eu me sento para escrever e montar listas de músicas islandesas. Me pego ouvindo umas dez ou mais vezes seguidas à mesma música (que adoro) para poder tentar entender a letra sem ter que olhar o texto escrito, nem sempre consigo, aí vou para a Internet buscar. Mesmo assim, ainda há algo que escapa e aí eu pulo para a tábua de conjugação e então para o dicionário e mesmo assim ainda vai sobrar algo que ficará inexplicado e terei que esperar o café da manhã para perguntar ao Luciano. Quem diria que o amor me daria de presente isso, outra pátria (onde já não moramos mais, mas que nunca sairá de mim e à qual espero voltar pelo menos durante nossas férias em algum momento da vida), outra língua, outro paradigma para existir. E como na bicicleta, em movimento também ele, o amor, para não perder o equilíbrio atravessa o oceano e se refaz na sua própria terra, já estrangeira, em outra cidade onde é possível se reinventar e continuar amando. Amando-se. Observando o filho crescer e enrolar o macarrão no garfo, começar a falar com aquele sotaque anasalado da zona oeste de São Paulo. É, pode ser que a maçã não caia muito longe do álamo, ou como dizem os islandeses “sjaldan fellur eplið langt frá eikinni”, que por aqui diríamos “quem puxa aos seus não degenera”. Eu sorrio e penso que os islandeses não entendem muito de árvores nem de frutas, mas com certeza de todas as espessuras da neve, das rajadas de vento e como sabem cantar. Como cantam esperando que voltem os pássaros da primavera, os que anunciam a volta do verde.Todos os quadros que aparecem no texto são da artista plástica islandesa Erna Mist.
UM POEMA
SER ESTRANGEIRO
Ser estrangeiro
é guardar num armário trancado
noites de verão numa cidade límpida e tranquila
quando fico sozinha
abro o armário
e escuto os meus próprios passos
ecoando nas casas que dormem
(traduzido do islandês por Luciano Dutra)
[AÐ VERA ÚTLENDINGUR]
Að vera útlendingur
er að geyma í lokaðri hirslu
sumarnótt í kyrrum björtum bæ
þegar ég er ein
opna ég hirsluna
og hlusta á skóhljóð sjálfrar mín
bergmála í sofandi húsunum
(Ingibjörg Haraldsdóttir)





Chego atrasada, mas quanto reconhecimento dessas flutuações de ânimo e, sobretudo, de desejo. O poema sobre ser estrangeiro/a foi a uva passa na rabeira da linguiça!
que bonito, cesca. acumulei leituras, mas alguma coisa me diz que essa cartinha chegou no momento certo